Quitar a última parcela traz uma sensação difícil de explicar.
Depois de meses, às vezes anos, vendo parte da renda desaparecer em empréstimos, cartão ou acordos, finalmente aquele dinheiro volta a ficar disponível.
E justamente aí pode surgir um novo risco.
A parcela de R$ 500 que acabou parece ter se transformado em R$ 500 a mais para gastar.
Não se transformou.
Sua renda continua praticamente a mesma. O que aconteceu é que você recuperou uma parte dela que estava comprometida.
Essa diferença é fundamental.
Depois dos 50, sair das dívidas deveria ser mais do que zerar boletos. É a oportunidade de construir uma vida financeira diferente daquela que levou ao endividamento.
E alguns passos simples podem ajudar.
1. Não comemore criando uma nova parcela
Parece contraditório, mas acontece.
Terminou o empréstimo do carro.
Acabou o acordo do cartão.
Foi paga a última prestação.
Surge então o pensamento:
“Agora posso assumir outra parcela porque já estava acostumado a pagar esse valor.”
É justamente aqui que o ciclo pode recomeçar.
Se você pagava R$ 600 mensais de uma dívida e conseguiu viver sem esses R$ 600 durante todo esse período, existe uma oportunidade enorme.
Continue vivendo como se parte daquele compromisso ainda existisse, mas agora pague para você.
Em vez de mandar os R$ 600 para o banco, comece a direcionar uma parte para sua própria segurança financeira.
2. Descubra por que você se endividou
Essa talvez seja a etapa mais importante.
Não basta quitar a dívida. É preciso entender sua origem.
Ela apareceu por causa de uma emergência?
Desemprego?
Redução de renda?
Compras parceladas demais?
Cartão de crédito?
Ajuda financeira aos filhos?
Despesas básicas maiores do que a renda?
Falta de reserva?
Cada resposta exige uma prevenção diferente.
Se o problema foi uma emergência e você continua sem reserva, o risco permanece.
Se foram compras parceladas, é preciso mudar a relação com o cartão.
Se a renda não comporta mais o custo de vida, simplesmente quitar as dívidas não corrige o desequilíbrio.
Faça uma pergunta simples:
“Se eu continuar administrando meu dinheiro exatamente como antes, essa dívida pode voltar?”
Se a resposta for sim, ainda existe trabalho a fazer.
3. Transforme a antiga parcela em uma reserva
Vamos usar um exemplo.
Durante dois anos você pagou R$ 450 por mês em um empréstimo.
Finalmente terminou.
Em vez de liberar imediatamente esses R$ 450 para consumo, imagine transferir R$ 300 todos os meses para uma reserva.
Em seis meses seriam R$ 1.800, sem considerar eventuais rendimentos.
Em um ano, R$ 3.600.
Os R$ 150 restantes poderiam voltar para o orçamento, proporcionando um pouco mais de conforto.
Não existe obrigação de utilizar exatamente essa proporção. O importante é o raciocínio:
uma parcela que termina pode virar patrimônio.
É uma das maneiras mais simples de transformar uma experiência ruim com dívida em algo positivo para o futuro.
4. Reconstrua sua reserva antes de aumentar o padrão de vida
Quando as finanças melhoram, é natural querer recuperar algumas coisas que ficaram para trás.
Viajar.
Trocar o celular.
Reformar a casa.
Voltar a frequentar determinados lugares.
Não existe problema em aproveitar o próprio dinheiro.
Mas depois de um período de endividamento, talvez seja interessante construir primeiro uma camada de proteção.
Porque a próxima emergência virá sem perguntar se você acabou de sair das dívidas.
Uma reserva reduz a possibilidade de que um problema no carro, na casa ou outra despesa inesperada leve novamente ao cartão ou ao empréstimo.
Depois dos 50, essa proteção ganha ainda mais importância porque o orçamento pode ter despesas menos flexíveis.
Primeiro recupere sua segurança. Depois aumente seus gastos com mais tranquilidade.
5. Não confunda limite recuperado com dinheiro novo
Quitou o cartão?
O limite voltou.
Terminou o empréstimo?
O banco pode oferecer outro.
Pagou o consignado?
Talvez apareçam novas ofertas de crédito.
É fácil interpretar isso como melhora financeira.
Mas crédito disponível continua sendo crédito.
Imagine alguém que acabou de quitar R$ 8 mil em dívidas e, poucos dias depois, vê no aplicativo:
“R$ 15 mil pré-aprovados para você.”
Nada daquele valor pertence à pessoa.
É dinheiro que poderá ser emprestado e posteriormente devolvido com as condições contratadas.
Depois de sair das dívidas, talvez seja justamente o momento de depender menos do limite oferecido pelo banco e mais do dinheiro que você conseguiu construir.
6. Crie regras para ajudar filhos e familiares
Esse ponto merece voltar porque pode estar diretamente relacionado ao endividamento depois dos 50.
Pais continuam querendo ajudar os filhos.
O problema aparece quando a ajuda exige:
emprestar cartão;
contratar consignado;
financiar algo no próprio nome;
utilizar toda a reserva;
ou comprometer mensalmente uma renda que já é limitada.
Depois de reorganizar as finanças, estabeleça seus próprios limites.
Por exemplo:
“Posso ajudar com aquilo que cabe no meu orçamento, mas não assumirei empréstimos.”
Ou:
“Não emprestarei meu cartão, mas posso ajudar a procurar outra solução.”
Isso não significa deixar de ajudar.
Significa impedir que a dificuldade financeira de outra pessoa volte a colocar sua própria aposentadoria em risco.
7. Dê um destino ao dinheiro antes que ele desapareça
Dinheiro sem destino costuma encontrar algum gasto.
Por isso, quando uma dívida terminar, decida antecipadamente o que acontecerá com aquele valor.
Uma parte pode ir para a reserva.
Outra para investimentos.
Outra para algum objetivo pessoal.
E sim, uma parte também pode ser destinada ao lazer.
Organização financeira depois dos 50 não deveria significar passar o restante da vida apenas acumulando dinheiro.
A diferença está em escolher antes de gastar, em vez de descobrir no final do mês que o dinheiro simplesmente desapareceu.
Se R$ 700 ficaram livres depois da quitação de uma dívida, por exemplo, você poderia criar uma divisão compatível com sua realidade.
Não existe porcentagem universal.
O princípio é mais importante:
cada real recuperado deve ganhar uma função.
Cuidado com a sensação de “agora eu mereço”
Depois de um período apertado, existe uma reação emocional perfeitamente compreensível:
“Passei tanto tempo sem fazer nada. Agora quero aproveitar.”
E deve.
O problema começa quando a recompensa pela saída das dívidas é justamente uma nova dívida.
Uma viagem pode caber no orçamento.
Um jantar também.
Uma compra desejada durante muito tempo pode fazer sentido.
Mas talvez seja melhor juntar primeiro e comprar depois do que voltar imediatamente às prestações.
Sair das dívidas não deveria transformar sua vida numa penitência financeira.
Deveria devolver liberdade de escolha.
Faça um teste depois de três meses
Três meses após quitar suas dívidas, observe sua conta.
O dinheiro que deixou de ir para parcelas:
começou a formar uma reserva?
virou investimento?
foi utilizado para algum objetivo planejado?
ou
simplesmente desapareceu em novos gastos?
Essa resposta mostrará se houve uma mudança financeira real.
Porque existe uma diferença enorme entre estar sem dívida hoje e ter construído uma vida com menor probabilidade de voltar a se endividar amanhã.
Sair das dívidas é apenas metade da conquista
Durante muito tempo, o objetivo pode ter sido um só:
“Quero terminar de pagar tudo.”
Quando isso finalmente acontece, surge uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada.
Aquela parcela que consumia sua renda pode começar a construir sua reserva.
O dinheiro destinado aos juros pode começar a trabalhar para seus próprios planos.
E a preocupação com o próximo vencimento pode dar lugar a decisões sobre aquilo que você realmente quer fazer.
Depois dos 50, reconstruir as finanças não significa recuperar o tempo perdido.
Significa utilizar melhor o tempo que está pela frente.
Por isso, quando pagar sua última dívida, comemore.
Mas no mês seguinte, faça algo ainda mais importante:
não procure uma nova parcela para substituir a antiga. Dê ao dinheiro que voltou para suas mãos um destino que trabalhe a seu favor.
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